Pular para o conteúdo principal
Química de peptídeos

Selank e Semax: origem e classificação dos peptídeos sintéticos

Dois análogos desenvolvidos a partir de moléculas naturais. Estrutura, origem e o que os define quimicamente.

Redação Peptídeos Brasil7 min de leitura

Selank e Semax são peptídeos sintéticos de sete aminoácidos, criados na Rússia a partir de moléculas que existem naturalmente no organismo. O Selank é um análogo da tuftsina, um tetrapeptídeo ligado à imunologia; o Semax é um análogo de um fragmento curto do hormônio adrenocorticotrófico, a ACTH. Do ponto de vista químico, os dois são heptapeptídeos desenhados com a mesma lógica: uma sequência natural encurtada, prolongada por uma cauda de prolina e glicina que a protege da degradação enzimática.

Nenhum dos dois tem registro como medicamento no Brasil, nos Estados Unidos ou na União Europeia — o registro deles existe apenas na Rússia e em alguns países vizinhos. Fora de lá, circulam como material de pesquisa, a categoria em que aparecem em catálogos de laboratório e à qual este artigo se refere do início ao fim.

Ilustração abstrata de duas cadeias peptídicas sintéticas montadas a partir de moldes de moléculas naturais, com motivos de frascos de laboratório

O que é um peptídeo sintético, afinal

Peptídeo é toda cadeia curta de aminoácidos unidos por ligações peptídicas — a mesma química que monta as proteínas, só que em escala menor. Dizer que um peptídeo é sintético significa que ele foi montado em laboratório, quase sempre por síntese em fase sólida, e não extraído de um tecido ou de um organismo. E dizer que ele é análogo de uma molécula natural significa que a sequência foi copiada de algo que a natureza produz, com modificações planejadas para alterar alguma propriedade — no caso do Selank e do Semax, a durabilidade da molécula em meio biológico.

Essa distinção importa na leitura de qualquer laudo: um reagente sintético tem estrutura exata e reproduzível, e é essa estrutura que a espectrometria de massas confirma quando compara a massa medida no frasco com a massa teórica da sequência declarada. Quando um catálogo descreve um composto como análogo de algo, a pergunta certa é sempre a mesma: análogo de quê, e com qual modificação?

A síntese em fase sólida, método que domina a produção desses compostos, monta a cadeia aminoácido por aminoácido sobre uma resina, em ciclos repetidos de acoplamento e lavagem. Para heptapeptídeos como os dois deste artigo, são sete ciclos — poucos, o que explica por que sequências curtas tendem a ter síntese mais limpa e laudos com picos cromatográficos mais nítidos do que os de peptídeos longos.

Selank: o análogo da tuftsina

A molécula de origem do Selank é a tuftsina, um tetrapeptídeo natural com a sequência Thr-Lys-Pro-Arg, descoberto nos anos 1970 no interior da imunoglobulina G, o anticorpo mais comum do sangue. Os pesquisadores russos mantiveram esses quatro resíduos e adicionaram ao final deles uma cauda de três aminoácidos, Pro-Gly-Pro, formando um heptapeptídeo [1]. A cauda não existe na molécula natural: foi uma escolha de engenharia para dificultar o corte por enzimas e prolongar a permanência da molécula em meio biológico [2].

  • Ficha estrutural do Selank:
  • Sequência: Thr-Lys-Pro-Arg-Pro-Gly-Pro
  • Tamanho: 7 resíduos de aminoácidos (heptapeptídeo)
  • Molécula-mãe: tuftsina, tetrapeptídeo do fragmento Fc da imunoglobulina G
  • Modificação: cauda C-terminal Pro-Gly-Pro, ausente na tuftsina natural

A tuftsina, vale registrar, tem história própria e ilustre: foi isolada em 1970 pelo grupo do bioquímico Victor Najjar, na Universidade Tufts — de onde vem o nome — e virou um exemplo clássico de peptídeo natural com papel regulatório no sistema imune [1]. Partir de uma molécula já estudada havia duas décadas era uma vantagem do desenho russo: o comportamento do núcleo era conhecido, e a modificação se concentrava em resolver o problema da fragilidade da molécula, não em reinventar a sequência.

Semax: o análogo do fragmento de ACTH

O Semax segue a mesma receita de construção, mas parte de outra molécula. A ACTH é um hormônio da hipófise com 39 aminoácidos; os pesquisadores isolaram o trecho central conhecido como fragmento 4-7, com a sequência Met-Glu-His-Phe, e somaram a ele a mesma cauda Pro-Gly-Pro usada no Selank. O resultado é outro heptapeptídeo, Met-Glu-His-Phe-Pro-Gly-Pro, que não existe na natureza [3][4].

Repare no padrão: nos dois casos, a natureza forneceu o núcleo de quatro resíduos, e a engenharia adicionou a mesma assinatura de três. É por isso que Selank e Semax costumam ser citados em par — são duas respostas da mesma escola de desenho molecular a moléculas-mãe diferentes, uma vinda do sistema imune e a outra do eixo hormonal.

Há também uma razão estrutural para a escolha do fragmento 4-7: esse trecho da ACTH já era conhecido da literatura por conservar atividade própria mesmo separado da molécula-mãe, o que o tornava um núcleo natural para o mesmo tipo de engenharia aplicada à tuftsina [3]. O resultado é que Selank e Semax formam quase um par didático: mesma cauda, mesmo número de resíduos, núcleos de origem completamente diferentes.

Duas moléculas distintas montadas com a mesma estratégia de desenho.
CaracterísticaSelankSemax
Molécula de origemTuftsinaFragmento 4-7 da ACTH
Núcleo conservadoThr-Lys-Pro-ArgMet-Glu-His-Phe
Cauda adicionadaPro-Gly-ProPro-Gly-Pro
Total de resíduos77
Registro como medicamentoRússiaRússia

Origem: a escola russa de desenho de peptídeos

Os dois compostos nasceram no Instituto de Genética Molecular da Academia Russa de Ciências, em Moscou, entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990, dentro de um programa que ficou conhecido pela tese dos peptídeos reguladores — a ideia de que sequências curtas, inspiradas em moléculas do próprio organismo, poderiam ser estudadas como agentes biológicos [1][3]. Na Rússia, o programa chegou a registros formais: o Selank como medicamento da classe dos ansiolíticos e o Semax para uso na área de neurologia.

Esses registros, porém, têm validade local. Nenhuma agência reguladora fora do antigo espaço soviético — nem a Anvisa, nem o FDA americano, nem a EMA europeia — consta com registro dessas duas moléculas como medicamento. A literatura clínica disponível fora da Rússia é escassa, e a maior parte dos estudos publicados vem dos próprios grupos de origem, o que limita a verificação independente dos resultados.

Por que Selank e Semax aparecem sempre em par

As ferramentas de busca tratam os dois nomes como um par: as sugestões automáticas do Google associam Selank e Semax na mesma frase, e o interesse medido ao longo de 2026 mostra volume pequeno, porém constante, para ambos no Brasil. A explicação é histórica e química ao mesmo tempo: eles nasceram no mesmo instituto, foram registrados no mesmo país e dividem a mesma assinatura estrutural. Para quem trabalha com documentação de laboratório, o ponto prático é que os laudos dos dois seguem o mesmo padrão — confirmação de massa por espectrometria e pureza relativa por cromatografia, lote a lote.

Fica também o alerta contrário: a semelhança de origem e de desenho não significa molécula intercambiável. São sequências diferentes, com massas moleculares diferentes, e um laudo de um deles não diz nada sobre o outro — motivo pelo qual a rastreabilidade por número de lote é a única ligação válida entre o frasco e o documento que o acompanha.

A situação regulatória no Brasil

No Brasil, Selank e Semax não têm registro em nenhuma categoria sanitária. O alerta publicado pela Anvisa em julho de 2026 declarou ilegais, para qualquer uso em saúde, os peptídeos BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelin — todos, como Selank e Semax, sem registro no país [5]. Os dois heptapeptídeos deste artigo não foram citados nominalmente, mas a condição deles é idêntica: sem registro, não podem ser vendidos como medicamento, suplemento ou cosmético.

Na prática, aparecem em catálogos apenas como material de pesquisa, destinado a laboratórios. A própria agência já demonstrou, em ações de 2026, que desconsidera o rótulo de pesquisa quando encontra sinais de destinação ao consumidor final. Quem tiver dúvida sobre o enquadramento de um produto deve procurar um profissional habilitado ou a própria Anvisa — este texto é informativo e não constitui orientação legal.

São ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Não oferecem qualquer garantia de segurança, origem ou composição.

Alerta da Anvisa sobre peptídeos sem registro, julho de 2026
Este produto é fornecido estritamente para uso exclusivo em pesquisa laboratorial qualificada. Não se destina a consumo humano ou animal, uso médico, uso cosmético, uso nutricional ou uso recreativo.

Referências

  1. SelankWikipédia em inglês
  2. Selank — ficha do compostoPubChem, National Institutes of Health (NIH)
  3. SemaxWikipédia em inglês
  4. Semax — ficha do compostoPubChem, National Institutes of Health (NIH)
  5. Checamos: peptídeos que prometem milagres não estão registrados na AnvisaAgência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 2026