NAD+ e NADH: a química da coenzima que virou nome de catálogo
Não é peptídeo, mas vive entre eles: a nicotinamida adenina dinucleotídeo e o par redox dela, explicados sem jargão.
NAD+ e NADH são duas formas da mesma coenzima, a nicotinamida adenina dinucleotídeo. O NAD+ é a forma oxidada, pronta para receber elétrons; o NADH é a forma reduzida, que carrega esses elétrons até o momento de entregá-los. A célula converte uma forma na outra continuamente, e é esse ir e vir que movimenta a produção de energia [1].
Apesar de aparecer em catálogos de peptídeos de pesquisa, o NAD não é um peptídeo: é um dinucleotídeo, uma molécula montada a partir de dois nucleotídeos, a mesma família química dos blocos que formam o DNA. Entender o par NAD+ e NADH é entender o básico do metabolismo energético [1].

O que é o NAD, quimicamente
A molécula tem três partes encaixadas: uma base nitrogenada chamada nicotinamida, que é uma forma da vitamina B3; uma base adenina; e duas unidades de açúcar ribose unidas por um par de fosfatos. O próprio nome descreve a arquitetura — nicotinamida adenina dinucleotídeo, ou seja, dois nucleotídeos ligados entre si [1][2].
A coenzima foi identificada no início do século XX, em pesquisas sobre fermentação que renderam prêmios Nobel da época, e hoje consta de bancos públicos de compostos com fórmula e massa bem definidas. Nos rótulos de laboratório ela pode aparecer como NAD+, como beta-NAD ou ainda na forma de sal de sódio — o íon sódio apenas acompanha a molécula para dar estabilidade ao pó [2].
Como toda coenzima, o NAD trabalha como um mensageiro entre enzimas: entra em uma reação, sai modificado e é reciclado em seguida, sem ser consumido de forma permanente. É essa reciclagem que permite que uma quantidade pequena da molécula sustente um volume enorme de reações por segundo [1].
A trilha da descoberta passa por nomes fundadores da bioquímica. Em 1906, Arthur Harden e William Young mostraram, em extratos de fermento, que a fermentação exigia um fator pequeno e termoestável além das enzimas — a cozimase, como o chamaram. Nas décadas seguintes, Hans von Euler-Chelpin destrinchou a estrutura da molécula e Otto Warburg esclareceu o papel dela na transferência de hidrogênio nas reações celulares, trabalhos premiados com Nobel que fundaram o estudo moderno das coenzimas [1].
Oxidado contra reduzido: a diferença em uma linha
A diferença entre NAD+ e NADH cabe em um único evento químico: o NAD+ recebe dois elétrons e um próton — na prática, um íon hidreto — na porção nicotinamida e se transforma em NADH. O sinal de mais no nome indica a carga positiva do anel de nicotinamida na forma oxidada; ao aceitar o hidreto, a carga se neutraliza e a molécula passa a carregar energia química [1].
| Característica | NAD+ | NADH |
|---|---|---|
| Estado químico | Oxidado | Reduzido |
| Papel no metabolismo | Recebe elétrons das reações de quebra de nutrientes | Carrega elétrons até a cadeia respiratória |
| Onde se forma | Cadeia transportadora de elétrons, na mitocôndria | Glicólise e ciclo de Krebs |
| Ao reagir | Ao receber elétrons, vira NADH | Ao doar elétrons, volta a ser NAD+ |
De onde vem o NAD+ da célula
A célula fabrica NAD por dois caminhos estudados em bioquímica. No primeiro, chamado de de novo, a molécula é montada a partir do triptofano, um aminoácido que vem da dieta. No segundo, a via de recuperação, a célula reaproveita pedaços de NAD já utilizados — como a nicotinamida liberada pelas reações — para refazer a coenzima pronta [1].
A via de novo também é conhecida como via da quinurenina, nome de um intermediário que o triptofano atravessa no caminho até a coenzima — é a rota longa, de muitas etapas. A via de recuperação, ao contrário, é o atalho: em poucos passos, a nicotinamida descartada pelas reações é recapturada e remontada. Nos tecidos estudados, é esse atalho que responde pela maior parte da reposição da coenzima [1].
A vitamina B3 entra nessa história como matéria-prima da via de recuperação, e a pesquisa sobre precursores de NAD cresceu justamente a partir dessa rota:
- ácido nicotínico, a forma clássica da vitamina B3;
- nicotinamida, a base presente na própria estrutura do NAD;
- e os nucleosídeos precursores, estudados em pesquisa como pontos de entrada da mesma via.
Para o laboratório, a diferença prática é simples: o frasco de pesquisa contém a coenzima pronta, não um precursor — e é como coenzima que o composto está catalogado nos bancos públicos [2].
O ciclo dentro do metabolismo
Na glicólise e no ciclo de Krebs, moléculas de NAD+ coletam elétrons liberados pela quebra de carboidratos e gorduras, acumulando-se na forma de NADH. Na membrana interna da mitocôndria, o NADH entrega esses elétrons ao primeiro complexo da cadeia respiratória — e é o fluxo deles ao longo da cadeia que sustenta a produção de ATP, a moeda de energia da célula [1].
A contabilidade explica por que a razão entre as formas importa. Se quase toda a coenzima estiver presa como NADH, faltam receptores para os elétrons das reações de quebra e o ritmo metabólico cai; se predominar NAD+, há capacidade de sobra para oxidar nutrientes. A célula ajusta essa proporção continuamente — e é por isso que ela virou variável medida em tantos experimentos de metabolismo e de estresse celular [1].
Por isso a relação NAD+/NADH é lida como um marcador do estado metabólico: ela informa quanto da coenzima está disponível para aceitar novos elétrons e quanto está ocupado carregando-os. Em pesquisa, essa razão aparece como variável em estudos de metabolismo celular e de resposta a estresse [1].
Existe ainda um primo próximo do par, o NADP+/NADPH: a mesma arquitetura com um fosfato a mais, especializado nas reações de síntese e de defesa contra estresse oxidativo. A confusão de nomes é comum em leitura rápida, mas a função bioquímica é distinta — enquanto o par NAD+/NADH gira em torno da produção de energia, o par fosforilado trabalha na construção e na proteção celular [1].
Além da energia: o NAD+ como substrato
O NAD+ não serve apenas de carregador de elétrons. Ele também é matéria-prima consumida por enzimas regulatórias: as sirtuínas e as PARPs, por exemplo, quebram a molécula para cumprir suas funções de reparo e sinalização. É dessa segunda função que nasce boa parte do interesse atual da pesquisa em envelhecimento celular, com estudos medindo como os níveis de NAD+ variam entre tecidos e condições experimentais [1].
Vale o mesmo cuidado aplicado a qualquer molécula em investigação: são pesquisas de mecanismo, conduzidas em células e em modelos animais, e não comprovação de efeito em pessoas.
Uma terceira enzima consumidora, a CD38, também entrou no mapa da pesquisa: estudos em modelos experimentais medem o aumento da atividade dela ao longo do tempo e a queda correspondente nos níveis de NAD+ dos tecidos. São medições de mecanismo, repetindo a ressalva — pesquisa de bancada, não conclusão sobre pessoas [1].
Por que o NAD+ aparece em catálogos de peptídeos
A convivência no catálogo vem do formato, não da química: o NAD+ é fornecido liofilizado em frascos, exatamente como os peptídeos de pesquisa, e circula no mesmo nicho de reagentes. A semelhança para por aí. Estruturalmente, trata-se de outra classe de molécula, sem nenhuma ligação peptídica na composição [2].
No Brasil, o nome ganhou notoriedade regulatória em outubro de 2026, quando um produto de NAD+ de um fabricante sem registro apareceu na lista de itens proibidos e apreendidos pela Anvisa na ação contra dois sites de venda em português. A medida cobriu venda, fabricação, distribuição, propaganda, transporte e uso dos produtos nomeados [3][4].
Como ler os nomes no rótulo e no laudo
A nomenclatura varia entre fornecedores e documentos, e cada variação tem significado químico:
- NAD+ ou beta-NAD: a forma oxidada da coenzima, a mais comum em catálogo;
- NADH: a forma reduzida, sensível e menos estável no armazenamento;
- sal de sódio de NAD+: a mesma coenzima acompanhada do íon sódio, para maior estabilidade;
- e o nome por extenso, nicotinamida adenina dinucleotídeo, frequente em laudos e monografias.
No certificado de análise, a identidade costuma ser confirmada por espectrometria de massas ou por absorção em ultravioleta, e o frasco liofilizado segue as mesmas regras de conservação dos peptídeos: geladeira, proteção contra umidade e atenção à data de validade impressa no rótulo [2].
Referências
- Nicotinamide adenine dinucleotideWikipedia (em inglês)
- NAD — registro de compostoPubChem (NIH)
- Anvisa proíbe insulina e tirzepatida vendidas de forma irregularMetrópoles, 2026
- Anvisa proíbe venda de insulina e tirzepatida irregularesEstado de Minas, 2026